Élève Libre

Até onde devemos recuar os limites dos nossos valores morais intuitivos – independentes de idade, sexo, cor, religião – para alcançar um objetivo? Essa é a pergunta que está implícita nesse excelente filme do jovem diretor belga Joachim Lafosse, que utiliza com destreza o arcabouço teórico camuseano para suscitar o debate. Três adultos na faixa dos trinta e Jonas, um adolescente em crise escolar são postos por Lafosse na mesma casa. Jonas decide se preparar para uma bateria de provas que lhe permitirão recuperar anos escolares perdidos e voltar a ter colegas de classe da sua idade. Ele deseja muito passar nessas provas. Mas os adultos da casa aproveitam a presença do adolescente imaturo para questionar seus princípios intuitivos. O mais influente é Pierre, que se tornou uma espécie de professor particular de Jonas e que, durante os estudos de filosofia, apresenta as idéias de Camus de um modo que exigiria muito mais maturidade e auto-segurança do que o seu jovem pupilo é capaz de alcançar. Jonas é levado a recuar tanto os limites de seus valores morais intuitivos que ele se torna sexualmente permeável às instâncias dos três mais velhos, em especial as de Pierre, que vai longe. Jonas acusa Pierre de estar mais interessado em abusar dele – ele usa esse termo – do que em prepará-lo para o concurso. Pierre se enfurece e o rechaça. Mas a reação de Jonas é imprevisível: ele quer ficar e continuar a contar com a sua ajuda. Pierre então o chama de « petite pute », acusando-o por sua vez de oportunismo e de se vender para alcançar seu objetivo de passar nas provas. Deste modo, Pierre e Jonas ficam « quites ». Na última cena, Jonas é aprovado nas provas; seu objetivo está alcançado.

O objetivo de Joachim Lafosse – ele diz isso em entrevistas – é deixar o espectador pensando. Seu papel foi por-nos diante do objetivo escolar de Jonas e diante daquilo que Jonas cedeu (seus valores morais intuitivos) para alcançar esse objetivo. Como Camus em seu L’Homme Révolté, ele nos deixa a liberdade de julgar se os valores deveriam preceder a ação ou se vice-versa.

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